Jornal A TARDE, 5-4-2008, Opinião.
Luiz Mott*
Quem não se comunica, se estrumbica, dizia o inesquecível comunicador Chacrinha (+1988). E para me fazer compreender por milhares de leitores e pela maioria dos brasileiros que entendem “gay” como termo genérico que inclui todo mundo que não é heterossexual, evitei propositadamente o título modernoso “Conferência GLBT”. Esta sopa de letrinhas, GLBT, para os muitos que não entendem seu significado, identifica Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Optando pelo genérico GAY, sigo a mesma lógica do Movimento Negro, que com apenas uma palavra, “negro”, ou duas no máximo, “afro-descendente” , unificou meia centena de autodefinições cromático-raciais, rejeitando termos antigos como moreno, mulato, chocolate, etc. Esta minha opção unificadora certamente provocará ira por parte de alguns “militantes gltb”, mas entre o politicamente correto e incompreensível, e a vox populi, fico com o povão.
Nos próximos 24, 25 e 26 de abril realiza-se em Salvador, no Instituto Anízio Teixeira (Avenida Paralela), a “I ª CONFERÊNCIA ESTADUAL DE GLBT”, convocada por decreto do Governador Jaques Wagner, em consonância com o Decreto do Presidente Lula, determinando que em todas unidades da federação fossem realizadas conferências estaduais preparatórias, com eleição de delegados, com vistas à participação, em Brasília da 1ª Conferencia Nacional GLBT, com data prevista para 6 a 8 de junho próximo. Tais conferencias, com participação de 60% de representantes da sociedade civil e 40% de órgãos governamentais, visam discutir e propor políticas governamentais a fim de promover a cidadania plena dos homossexuais e transgêneros. Seguem a mesma sistemática das demais conferências nacionais de negros, idosos, mulheres, da saúde, etc. É a sociedade civil discutindo e colaborando com o governo municipal, estadual e federal, no planejamento e execução de ações afirmativas para os segmentos que mais sofrem com a apartação social e econômica.
E quando se fala em discriminação e falta de cidadania, verdade seja dita, os homossexuais sofrem muito mais que qualquer outra minoria social, já que a “homofobia” começa dentro de casa, praticado inclusive pelos entes mais queridos. Quem nunca ouviu um pai ou mãe dizer: “prefiro um filho ladrão, do que homossexual”? ! Discriminação que ceifa a vida, todos os anos, a mais de uma centena de travestis e gays, fazendo do Brasil o campeão mundial de homicídios homofóbicos. Só nestes três primeiros meses de 2008 já foram notificados 43 “homocídios”, uma execução a cada dois dias, seis na Bahia!
O Grupo Gay da Bahia, com seus 28 anos na frente da luta contra homofobia, tudo fará para que as deliberações das conferências estadual e nacional GLBT sejam rigorosamente cumpridas pelo Governo, erradicando de nosso querido Brasil o cancro do racismo anti-homossexual. Afinal, Bahia tem de rimar com alegria, e não com homofobia!
*Professor Titular de Antropologia da UFBa e fundador do GGB – Grupo Gay da Bahia